Os 3 da 6 mais 1: WC Parvos.

Ha ha Batman… Ha ha.
19 de Maio de 2006, 21h20
Podia dizer que tinha saído do trabalho, mas esse para mim nunca acaba: os malfeitores não têm horas de expediente e não tiram férias, porque hei-de eu tê-las?
Descia pela rua do Rouxinol, aquela que todos os dias percorria, a lua estava alta e cheia, e uma neblina fria abraçava a cidade. Os candeeiros cor de fogo iluminavam-me o caminho de volta a casa, à minha espera estava a garrafa de Jack Daniels e a caixa de Cohiba’s, chamo-lhes a minha novela da noite.
Cruzo-me com duas morenas que logo se atiram sem vergonha nenhuma: “Precisas de companhia hoje, querido?”; viro a cabeça para o lado sem lhes dar troco, conheço-lhes bem o tipo, estas cadelas só querem é ficar com o dinheiro, nada mais lhes interessa.
Além disso, a companhia que mais preciso carrego-a à cintura sempre comigo, a .45 nunca me deixou ficar mal.
Ao aproximar-me da esquina da minha rua começo a sentir um odor desagradável que pairava no ar “O estúpido do cão vadio veio mijar isto outra vez” – penso eu enquanto me aproximo da boca de incêndio. Não que estivesse muito surpreendido com tal presente, mas pensei que depois da sova que lhe dei há duas noites atrás ele tivesse entendido a lição. Diz-se que os cães vadios são mais inteligentes, mas este parece nunca aprender.
É o meu território! Alço a pata esquerda e faço questão que isso fique bem esclarecido, não gosto de confusões.
Entro em casa, pego num dos copos lavados e encho dois dedos. Amanhã será um novo dia.
Piruças
O ‘snifador’, lhe chamaram outrora; qualquer bandido com mais de um oitavo de grama era logo apanhado pelas aguçadas narinas pintadas a preto. Negros são também os olhos, que com tão profunda cor nos penetram e nos lêem como um livro aberto. Falo-vos de Piruças, o cão detective.
Sua mãe, cadela de boas famílias, guardava no coração uma eterna paixão proibida por Manchinhas, o vadio (como lhe chamavam os donos dela), que sempre se passeava lá à porta. Ansiava todos os dias para o ver, e sempre sonhava com as suas escapadelas a dois em segredo.
Foi numa noite chuvosa de Janeiro que, com enorme mágoa, ouviu ao longe o chiar dos pneus do ferrugento Datsun vermelho, mesmo na esquina da sua rua, e o forte embate que depois se fez sentir; não houve nem um choro, um latejo que fosse – Manchinhas era conhecido pela sua coragem e bravura, dizia-se até que nem sabia ganir – mas ela sentia-o, o seu amado tinha sido a vítima do Maneta – um viciado em cocaína sempre atrás da ‘cena’; naquela noite estava com a pressa da ressaca, a estrada já fugia diante dos seus olhos… Manchinhas foi apenas uma pedra no caminho.
Contou duas luas desde aquela terrível noite; acanhada num canto da velha garagem a cadela pariu um único cãozinho bebé, de cor laranja-fogo e olhos negros: Piruças sentia a frieza do mundo pela primeira vez. O pequeno rebento cresceu forte e robusto, um cão destemido à imagem de Manchinhas; sempre que olhava para ele, a velha cadela revia o seu grande amor. ‘Um dia, vais ser grande como ele foi’ sempre lhe dizia; Piruças não percebia bem o que sua mãe queria dizer com tais palavras, mas nunca as esqueceu. Desde pequeno que ouvia as histórias do pai, era o seu herói, mesmo que nunca o tenha chegado a conhecer; mas a recordação que mas emoção lhe impingia era a daquela negra noite de Inverno, em que Manchinhas foi morto pelo drogado… sentia uma enorme raiva, jurou vingar a sua morte.
O sentido apurado de olfacto foi-se desenvolvendo quase sem se ver, tinha ‘bom sangue’. A sua fama cresceu, destacava-se de todos os outros. Facilmente se tornou o grande cão detective que todos os departamentos invejavam.
É agora o fiel guardador da 6. Nunca dorme, continuamente alerta, nem um piscar de olhos se lhe percebe… está sempre preparado para atacar. De faca na pata, fielmente protege a entrada da casa de qualquer possível malfeitor. Deve-se a ele toda a segurança que sentimos dentro dos nossos quartos, e é por sabe-lo lá que dormimos com descanso pela noite. Estamos em paz.
Obrigado Piruças.

Os grande Piruças nos seus dias de cão-detective.
O que é que acontece se juntarmos o Tiopental com a Tizanidina?
- Ganhamos um Pri(mo)mário. Talvez.
(Tenho de parar de estudar farmaco… rapidamente)
A Sinai e os seus colegas acabaram o curso de enfermagem, e seguindo as tradições académicas foi hoje feita a Eucaristia de Encerramento para o comemorar. Fui na companhia da Vânia assistir a este momento, e ao entrar naquela igreja nunca imaginei como me iria sentir à saída…
Cheguei atrasado, e o padre já falava quando entrei e tive que ficar de pé por não haver lugares. Esses primeiros momentos foram para mim como outra missa qualquer, mas depois começaram a cantar, como costume. Eu conhecia bem a música, dos meus tempos de escuteiro, e comecei a cantar também… E, logo no segundo verso, fiquei com a voz embargada, senti-me muito estranho e comecei a chorar. Atenção, notem que feliz ou infelizmente eu sou uma pessoa que chora muito muito raramente. A última vez que chorei antes desta foi no dia 18/09/2007, e antes dessa em 08/08/2004 (de felicidade, no fim de uma actividade escutista). Dou-vos esta achega cronológica para sublinhar como o choro deve ser interpretado aqui não como algo banal, mas como o marcador de algo realmente importante na minha vida.
E pronto, chorei com o mínimo estardalhaço que consegui, contive-me com força e sequei as lágrimas quando a música acabou. Depois continuou a missa e começaram a cantar outra vez. E então chorei baba e ranho, de tal forma que tive que sair da igreja para me recompor, e depois de voltar a cena ainda se repetiu mais uma vez.
– Entrei para o movimento escutista com 6 anos de idade, e fui forçado a desistir no início deste ano escutista por ser impossível conciliar o escutismo activo com a vida académica. Foram, assim, 15-16 anos da minha vida, um pouco mais que 3/4 do seu total, que vivi como parte dessa grande fraternidade, onde dei e recebi como irmão, onde cresci, onde tanto aprendi e recebi tanta bagagem e valores que trago para a vida. Sou uma pessoa feliz, e (não esquecendo nunca a fantástica família que tenho em casa) posso dizer que ser escuteiro contribuiu muito para isso. –
Pois bem, hoje a primeira vez que ouvi cantar assim músicas comuns às que cantávamos nas actividades e fogos de conselho e sábados sem reunião, e não consegui caber em mim mesmo de saudades e nostalgia e recordações tão tão boas, tão tão doces, mas que sei que nunca mais voltarei a viver da mesma maneira, pois só hei de ir a mais uma actividade, apenas: a minha Partida.
… mas eu não quero partir.