Enquanto fui à UCIGE

Chegados da Marinha Grande viemos directamente aos HUC para que eu pudesse fazer a “visita” diária à Cama 2 (a melhor cama dos HUC) da UCIGE (Unidade de Cuidados Intensivos de GastroEnterologia). Como estes dois têm mau aspecto e não os iam deixar entrar, ficaram na rua a tirar fotos para planear para uma possível operação com o Scofield, em que pretendem penetrar no impenetrável (a não ser que digam que são alunos ou levem bata) hospital, porque sim.

Aqui estão duas fotos dos dois capangas, tiradas com as suas novas máquinas fotográficas (para um deles, chamemos-lhe “filha”). Não há melhor local para o Baba tirar fotos. Caso aconteça alguma coisa à “filha”, o seu desgosto é tão grande que as Urgências são o seu destino.

Deixo-vos aqui uma foto do Pedro tirada em zooming e do Baba tirada em panning.

Bah…fraquinhos… Tudo desfocado… Mania que são artistas… :P

Facção “vocês”

Já vi algumas pessoas preocupadas com o estado da economia a nível global e com medo que aconteça qualquer coisa meio catastrófica tipo um crash da bolsa ou assim. É um medo compreensível, mas eu cá não estou minimamente preocupado, que já tenho tudo pensado muito à frente.

Passo a explicar: na eventualidade de acontecer mesmo uma quebra total da economia, é altamente provável que a política global derrape para extremismos tipo comunismo capitalista, ou fascismo coiso, ou algo assim. E este tipo de extremismos, por sua vez, leva a uma outra consequência que é a guerra global de uns com os outros, à qual não faltarão umas bombinhas atómicas e afins. E onde é que estou eu no meio disto tudo? Com a valiosa experiência que adquiri no quase-apocalipse da greve dos camionistas, saberei dirigir-me ao supermercado mais próximo para comprar latas de atum, e depois aguento-me fechado num buraco qualquer a comer atum até que a radiação baixe para níveis subletais. Então, saio de novo para a cidade agora transformada em deserto nuclear e arranjo umas armas artesanais para o caso de precisar delas quando for tomar de assalto o hospital. Porquê o hospital? Porque tem muitos recursos médicos e farmacêuticos valiosos, muito espaço e muitas camas, e pela altura a que se ergue, a par com um bom conhecimento da sua arquitectura labiríntica, torna-se muito defensável contra os ataques dos raiders do deserto com cabelo meio rapado meio espetado, semi-vestidos em roupas de cabedal amaricadas, a abanar espingardas serradas em cima dos seus buggies artilhados de motosserras. A partir do momento em que controle o hospital já posso reunir a minha facção para montar um quintal e essas coisas necessárias para a auto-sustentabilidade ao mesmo tempo que exploramos as ruínas da cidade e tiramos o combustível dos automóveis ainda não totalmente destruídos que formos encontrando. Este servirá para garantir a continuada função das equipas de exploração e dos geradores que darão energia ao hospital para funções indispensáveis e tal e coisa. Entretanto o crescimento sustentado da facção irá evoluir num foco de repovoação que dará luz à primeira metrópole pós-apocalíptica do planeta, tornando Portugal no centro do Novo Mundo, e viveremos felizes para sempre.

Por isso, lanço desde já o apelo para que se juntem à facção que irá restaurar um mundo perdido, é graças a “vocês” que tudo se tornará possível! Inscrevam-se! Querem um novo mundo? Facção vocês!

Coisas da vida

Apesar de ter que ir para a Dungeon Comics daqui a nada para o torneio de bloco, não resisto a vir aqui contar esta historieta de hospital que inadvertidamente provoquei nem há meia hora.

Finda mais uma aula – se é que se pode chamar por esse nome ao trabalho autodidacta que fazemos – de propedêutica cirúrgica, eu, o Marvin, o Miguel, o João do Carmo (doravante apelidado Netter, por conveniência), e o Arnaldo apanhámos o elevador para ir ao piso -3 guardar batas em cacifos. E eis que, enquanto íamos descendo, empacotados em gente, entre os comentários do costume, eu menciono que “a seguir vou ao bloco”. O torneio, não o operatório.

[Pelos vistos uma rapariga bonita, que o Netter com o seu arcano conhecimento mais tarde nos esclareceu como sendo cardiologista e boa, retorquiu-me “Eu também vou”, mas eu não só não ouvi como não me apercebi da sua presença pelo que a ignorei à grande e à francesa]

Pouco depois, tomando consciência da brutal sonolência que me dominava, acrescentei: “estou cheio de sono. ainda vou adormecer no bloco, e perco por causa disso”. Uns segundos de raciocínio lento depois, apercebi-me que estava a falar em ir adormecer para o bloco num elevador cheio de utentes e funcionários dos HUC propensos a interpretar mal. Meio embaraçado ri-me do meu trocadilho acidental, e finalmente chegámos ao -3.

Já sem batas nem estetoscópios saímos pelo atalho da lavandaria e eis que, quase ao portão do hospital, uma senhora de idade com cara desorientada chama pelo Netter. “Oh menino, pode vir aqui?” Conhecedor do admirável talento do Netter para conversar com senhoras de idade, e também na vaga esperança de poder ajudar a dizer à senhora onde era o sítio que eu imaginei que ela estivesse à procura, fui atrás dele. E, quando nos aproximamos, ela larga a sua ofensiva: “O menino foi muito incorrecto. Sabe que não devia ter dito aquilo no elevador?”. Heróico, reconhecendo-me como o verdadeiro culpado, atravesso-me à frente do Netter para receber o golpe e tentar remediar o erro. “A senhora tem razão, mas aquilo que ouviu estava fora de contexto”. Nem deu sinais de se aperceber da troca de locutor, e logo disse que trabalhava na área da saúde e que eu tinha sido muito incorrecto, inconsequente, e pueril (não por estas palavras. estou a abreviar). Continuei a tentar explicar que eu estava a falar de algo completamente diferente sem intenção de fazer ninguém pensar em bloco operatório. Até fiz uma esperançosa mas falhada alusão às cartas Mágic, para lhe tentar mostrar que ela tinha percebido da forma errada. “Pois sim, eu percebi de muitas e derivadas maneiras! Saiba que saiu daquele elevador uma menina a chorar por causa daquilo que você disse!”. “Pois olhe, foi um mal entendido infeliz. Peço mil desculpas.” E dito isto virei costas e fui embora porque soube que ela não se iria ficar por ali se lhe deixassem. Enquanto me afastava ainda a ouvi enfatizar a palavra infeliz e a menina a chorar, entre os risos do Netter. Tudo por causa de um comentário acidental.

Eis o poder da palavra.