Ani*al

O Pedro às vezes escreve coisas mesmo parvas. Olhem esta:

” Aníbal

Às vezes, pelo simples prazer de pensar, em contraste a uma mente em branco, só mesmo para manter a mente ocupada, dou por mim a seguir linhas de raciocínio absurdas. Vou naquela do palavra puxa palavras, ideia puxa ideia, e começando a pensar em, digamos, cebolada, acabo por surpreender-me a pensar em, digamos, alfaiates, sem saber como lá cheguei (reparem que cebolada e alfaiates são exemplos meramente ilustrativos – não me lembro de alguma vez ter assim discorrido sobre eles). E depois, continuo a pensar e vou aterrando em mais conceitos totalmente estranhos, até que algo me interrompa. Ainda assim, e apesar de tão fútil como tantos outros entretens, gosto deste que é o pensar.
Também imagino frequentemente o desenrolar de conversas hipotéticas em situações que até poderiam ter acontecido, e sigo na minha cabeça os diversos rumos possíveis que essas conversas eventualmente levariam, até descobrir as formas perfeitas de retorquir para todas essas situações em que provavelmente nunca me encontrarei.
Outras vezes, fico-me pelas próprias palavras, sem sequer aprofundar ao que realmente jaz na sua significância, porque fazer trocadilhos, só porque sim, até é giro. Por exemplo, imaginem um cão, ou um coelho, ou um murganho. Tudo exemplos de um animal simpático, fofinho, agradável. Então, porquê chamar-lhe animal? Para reflectir a sua natureza, mais depressa lhes chamaria anibem que animal. A não ser que os haja muitos. Se em vez de ter apenas um bicho eu tiver mais, então lá está, tenho mais. Não faria sentido chamar-lhes animenos.

Pedro Silva
04/03/2008
03:24″

O meu comentário:

Albert, suicide me, please.

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A história do Farrusco

Não me lembro quantos anos tem esta memória, mas sei que vem dos tempos em que eu era mesmo mesmo pequenito.

Estava em casa a fazer qualquer coisa, com a minha irmã e os meus pais, quando ela me diz para a acompanhar numa qualquer tarefa que eu não percebi bem o que era. E assim, lá fui eu, sem saber bem onde íamos, seguindo a minha mana à medida que saíamos à rua, para depois atravessar a linha de comboio, para depois atravessar a estrada, para depois continuar pelo passeio para além do café Cortiço. Não tenho qualquer recordação de ter ido além do café Cortiço, pela estrada principal, antes deste dia. Por isso, começou a ganhar o seu toque de aventura à medida que eu explorava o que ficava para além dos meus domínios cartográficos.

Não tínhamos sequer chegado à rotunda, mas a mim parecia que íamos tão longe, quando ela abre um portão de jardim e entra no jardim que se estendia entre este e a casa que, como logo deduzi, íamos visitar. Quando ela bate à porta, vem uma senhora velhinha abrir, e apesar de eu nunca a ter visto antes, sorri para nós, cumprimenta-nos como se nos conhecesse antes de nós mesmos nos conhecermos, e convida-nos a entrar. Apesar de hesitante, eu estava com a minha irmã por isso sentia-me seguro, e entrei atrás dela.

Lembro-me pouco do interior da casa, e talvez a memória já me pregue partidas, mas tenho a ideia que o tom que mais sobressaía no interior da casa era o castanho, talvez tivesse aquele chão em plástico que imita tacos de madeira, talvez não. Do corredor da entrada fomos logo para uma sala não muito grande, antiga, e esperámos lá enquanto a senhora se ausentou. Não me lembro se falei com a minha mana enquanto esperava, talvez não tenhamos trocado mais que olhares. Passado um pouco, a senhora regressa com um pano nos braços, como se segurasse um bebé. Mas era um gatinho minúsculo o que trazia no colo. Muito muito preto, preto como uma boa caneta de feltro, que mais tarde se veio a chamar Farrusco. Foi o meu gato durante uns anos, e depois houve um dia em que não sabíamos dele e nunca mais o vimos.

Quase esqueci o Farrusco, soterrado em tantas memórias que acumula uma vida cheia de viver. Mas lembrei-me há uns tempos da misteriosa e aventurosa forma como se cruzou com a minha história, e afinal ele não se perdeu.

Agora que tenho um blog, e como suponho que seja suposto ir deixando cá coisas bonitas de se ler, eis que partilho convosco esta memória. Espero que gostem.