Erros no bloco

Toda a gente comete erros. Podemos sempre pensar que ah e tal com algum jeitinho e atenção até vamos lá, mas há coisas incontornáveis. Ontem cometi vários erros, decerto, como aliás toda a gente o terá feito, com mais ou menos repercussão, mas só reparei num, aparentemente inocente, mas de consequências bem óbvias e nefastas… No contexto em que se inseriu, claro está (para quem ainda não tenha percebido, esse contexto foi o bloco. O torneio, não o operatório).

Fiquei tão frustrado que, apesar de me obrigar a aceitar o erro que cometi, não deixei de exprimir o quão frustrado me senti, e de contar o erro a toda a gente. Várias vezes. Para aliviar a frustração. Passei uma boa parte da noite a descrever aquele erro a toda a gente que o pudesse entender, e acabei por me afeiçoar a ele. Tornou-se, portanto, inevitável que eu o venha aqui contar.

Começo por explicar a situação em que o dito erro surgiu: Havia 10 participantes no torneio, estávamos na 2ª de 4 rondas. Eu empatara a primeira ronda por 1-1, e esta, contra o António com um deck com mecânica de Doran, estava também 1-1, com o terceiro jogo a decorrer e 15 minutos para o fim. Se eu ganhasse, ainda tinha hipóteses de um segundo ou terceiro lugar. O Mário tinha arrancado muito bem, com um exército de Harbingers aliados ao Doran a bater-me com força. Consegui neutralizar-lhe dois Dorans com Rings e inverter o jogo, com alguma mistura de sorte e habilidade, e 4 pontinhos de vida. Quando o erro aconteceu, eu tinha um Unstoppable Ash num Harbinger, um Leaf-Crowned Elder, um Thorntooth Witch e um Doran na mesa. Ele tinha só um Garruk com 2 counters na mesa e nada na mão. Estava a atacar para 4 de dano e ele diz que passam e vai buscar o papel para apontar. Ainda tenho um relampejo do Garruk no pensamento e quis dar o dano ao bicho, mas ele já estava a apontar a vida no papel. Pensei que mal me vai fazer um Garruk quando ele não tem bichos na mesa? Pois descobri que a resposta é “muito”, quando ele top-decka um Profane Command e usa o Garruk para conseguir a mana que precisava para o conseguir jogar. Pimbas, perco 5 de vida e com isso um jogo que já pensava ser meu e a hipótese de uma classificação vistosa. Frustrante, não é?

Mas aprendi.

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Coisas da vida

Apesar de ter que ir para a Dungeon Comics daqui a nada para o torneio de bloco, não resisto a vir aqui contar esta historieta de hospital que inadvertidamente provoquei nem há meia hora.

Finda mais uma aula – se é que se pode chamar por esse nome ao trabalho autodidacta que fazemos – de propedêutica cirúrgica, eu, o Marvin, o Miguel, o João do Carmo (doravante apelidado Netter, por conveniência), e o Arnaldo apanhámos o elevador para ir ao piso -3 guardar batas em cacifos. E eis que, enquanto íamos descendo, empacotados em gente, entre os comentários do costume, eu menciono que “a seguir vou ao bloco”. O torneio, não o operatório.

[Pelos vistos uma rapariga bonita, que o Netter com o seu arcano conhecimento mais tarde nos esclareceu como sendo cardiologista e boa, retorquiu-me “Eu também vou”, mas eu não só não ouvi como não me apercebi da sua presença pelo que a ignorei à grande e à francesa]

Pouco depois, tomando consciência da brutal sonolência que me dominava, acrescentei: “estou cheio de sono. ainda vou adormecer no bloco, e perco por causa disso”. Uns segundos de raciocínio lento depois, apercebi-me que estava a falar em ir adormecer para o bloco num elevador cheio de utentes e funcionários dos HUC propensos a interpretar mal. Meio embaraçado ri-me do meu trocadilho acidental, e finalmente chegámos ao -3.

Já sem batas nem estetoscópios saímos pelo atalho da lavandaria e eis que, quase ao portão do hospital, uma senhora de idade com cara desorientada chama pelo Netter. “Oh menino, pode vir aqui?” Conhecedor do admirável talento do Netter para conversar com senhoras de idade, e também na vaga esperança de poder ajudar a dizer à senhora onde era o sítio que eu imaginei que ela estivesse à procura, fui atrás dele. E, quando nos aproximamos, ela larga a sua ofensiva: “O menino foi muito incorrecto. Sabe que não devia ter dito aquilo no elevador?”. Heróico, reconhecendo-me como o verdadeiro culpado, atravesso-me à frente do Netter para receber o golpe e tentar remediar o erro. “A senhora tem razão, mas aquilo que ouviu estava fora de contexto”. Nem deu sinais de se aperceber da troca de locutor, e logo disse que trabalhava na área da saúde e que eu tinha sido muito incorrecto, inconsequente, e pueril (não por estas palavras. estou a abreviar). Continuei a tentar explicar que eu estava a falar de algo completamente diferente sem intenção de fazer ninguém pensar em bloco operatório. Até fiz uma esperançosa mas falhada alusão às cartas Mágic, para lhe tentar mostrar que ela tinha percebido da forma errada. “Pois sim, eu percebi de muitas e derivadas maneiras! Saiba que saiu daquele elevador uma menina a chorar por causa daquilo que você disse!”. “Pois olhe, foi um mal entendido infeliz. Peço mil desculpas.” E dito isto virei costas e fui embora porque soube que ela não se iria ficar por ali se lhe deixassem. Enquanto me afastava ainda a ouvi enfatizar a palavra infeliz e a menina a chorar, entre os risos do Netter. Tudo por causa de um comentário acidental.

Eis o poder da palavra.