Mr. Fortune

Já conhecia este vídeo há muito tempo, e já o tinha esquecido entretanto. Mas hoje, quando estava quase a adormecer devido ao torpor do estudo, tive uma vontade enorme de “revisitá-lo” e fui surpreendido pelo prazer que me isso me trouxe.

Há algumas razões pelas quais eu gosto muito deste vídeo, para além da excelente animação e da boa música, que se prendem com a interpretação que eu faço dele, que pelos vistos, na opinião de algumas pessoas, é surpreendentemente elaborada. Por isso é que resolvi vir aqui partilhá-la: e para vocês, qual é a vossa visão sobre este clip?

Vejam e interpretem primeiro, leiam o resto do post só depois, para que a minha opinião não influencie a vossa.

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Antes de começar, deixo só a nota de que tendo visitado o site do autor, descobri, tal como já desconfiava, que aquele bonequinho branco se chama Mr. Death.

O vídeo começa com o aparecimento do Mr. Fortune na varanda de um prédio claramente velho e degradado, pobre e supostamente triste. No entanto, vemo-lo a sair, vibrante, cheio de uma felicidade musical que se nota ser constitutiva e não apenas momentânea. Ele caminha, satisfeito, por uma cidade sem muita cor, mas leva sempre um sorriso aberto na cara. Quando se senta, antes de pegar na guitarra, olha para o céu e sorri, reparando na beleza simples e discreta de um detalhe citadino, em que certamente mais ninguém reparou. E então, ele toca. Toca uma música que é simples, humilde, sem quaisquer pretensões, e ainda assim é muito bela. As pessoas passam por ele, depressa, decerto com um caminho determinado, ocupadas com alguma coisa que procuram, mas o Mr. Fortune sem ambições vãs tem tempo para apreciar e viver algo simples como o é a música, que não se importa de partilhar. No fim tem moedas aos seus pés, mas ignora-as a favor de um novo olhar para o sol.

Depois, há uma transição de cena e vêm-se as ondas do mar a rebentar, cada uma delas forte e bonita mas efémera pois no auge da sua existência é quando termina, irremediavelmente, como todas as ondas terminam para dar lugar à próxima (esta visão eu já a tinha, já escrevi sobre esta metáfora). Lá está o Mr. Fortune, apreciando mais um cenário de beleza, e de repente, de uma cena para a outra, súbita, sem aviso (tirando talvez aquela aparição mais cedo aparentemente inócua e que eu não soube interpretar), a morte. Esta chegada da morte, este confronto, este choque rouba ao Mr. Fortune o seu sorriso e a sua vibrância e ele pára por um momento, terá dúvidas, terá medo, estará triste? Mas eis que, e é aqui que eu o invejo para além de todos os limites, ele a aceita, recebendo a morte com o mesmo sorriso que dedicou à vida. Juntos, olham mais uma vez para as ondas, para a beleza do ciclo do mar, da vida. Quando o Mr. Fortune desaparece, desaparece também aquela música que o caracterizava, mas o som não acaba. Continua a batida de fundo, imutável, inabalável, como continuam a chegar novas ondas do mar. É a vida que continua.

Site do autor

Far Rockaway

“Recordo uma conversa que tivemos cerca de um ano antes da sua morte, enquanto passeávamos pelas colinas sobranceiras a Pasadena. Estávamos a explorar um caminho desconhecido e Richard, na altura convalescente de uma grande cirurgia a um cancro, caminhava mais devagar que o habitual. Estava a contar uma história longa e divertida sobre como tinha lido imenso sobre a sua doença, de tal modo que surpreendia os médicos ao prever o diagnostico que iriam fazer e quais as suas hipóteses de sobrevivência. Fiquei a saber pela primeira vez em que medida o seu cancro tinha progredido, pelo que as graças não pareciam ter graça nenhuma. Ele deve ter reparado na minha disposição de espírito, porque, de súbito, interrompeu a história e perguntou: «Que se passa?»
Hesitei. «Estou triste por ires morrer.»
«É verdade», suspirou ele, «isso por vezes também me chateia. Mas não tanto como pensas.» E, depois de ter dado mais alguns passos, continuou: «Quando se chega à minha idade, começa-se por ver que, de qualquer modo, transmitimos aos outros a maior parte do que sabemos melhor.»
Caminhámos em silêncio durante alguns minutos. Chegámos a um local onde um outro caminho interceptava o nosso e Richard parou para inspeccionar as redondezas. De súbito, um sorriso largo iluminou-lhe o rosto. «Eia!», exclamou ele, todos os vestígios de tristeza esquecidos, «aposto que consigo encontrar um caminho melhor de regresso.»
E assim fizemos.”

– in O melhor de Feynmann

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