Artifício

Estou de férias em Albufeira. Pelos vistos, depois daquele fogo-de-vista quando ameacei reclamar o blog como só meu, o Nobre e o Nutarros nunca mais voltaram a postar, pelo que isto anda praticamente morto. Então, não tenho remédio senão vir aqui deixar qualquer coisinha que escrevi ontem à noite. Não me atirem demasiadas pedras.
 
Artifício  
 
Esta noite, a praia está cheia e sou apenas mais um de entre muitos sentados na areia perto do mar. Envolvendo-nos, no ar, ouve-se um canto melódico e triste, fado cantado por e com uma alma acompanhada de guitarras. À minha volta, para cima e para baixo, e junto à mansa rebentação em desafio ao incomensurável poder do mar, correm crianças pequenas rindo, felizes, enquanto atiram areia umas às outras e caem ao chão com aparato.
 
É um cenário muito diferente daquela beleza indescritível, a mim tão especialmente querida, da praia nocturna sozinha e selvagem, mas à sua maneira possui uma beleza própria também encantadora, na vida emanada por estas pessoas todas que pintam a praia de um tom diferente do amarelo habitual, enquanto se embalam por esta melodia de melancolia que tanto nos toca. Os risos das crianças complementam-na bem.
 
E o mar, aproveitando a forte luz tangencial dos holofotes que nele incidem, adquire um padrão unusual com a ondulação criando riscas de água iluminada que avançam sobre um fundo escuro até se desfazerem em espuma. Entretanto, mais pessoas se vão aglomerando aos poucos na praia. À medida que o fado esmorece, a enorme massa de gente feliz aproxima-se ainda mais do mar: daqui a pouco começará o fogo de artifício.
 

Mar mecânico

Esta manhã começou feliz. Sabe mesmo bem esta sensação, perfeitamente injustificada e aparentemente aleatória, de que o dia começa feliz. Mas desta vez nem foi totalmente injustificado, porque apesar de já ter acordado bem disposto, as circunstâncias ajudaram quando me atiraram um cenário inspirador.

Como costume, saí de casa pelas 09:20 para ir beber o leitinho ao AIBILI, e mal atravessei a porta, um casal já de idade que ia a passar cumprimenta-me audivelmente, apesar do meu aspecto desgrenhado de quem não se penteia ou faz a barba há éons. E logo logo a seguir, os espanhóis na varanda do apartamento ao lado, que ainda ontem à noite me vieram pedir gelo – eu só tinha uns 18 cubos, que pelos vistos ainda aguentam a festa – atiraram um esfuziante “buenos dias”! Sabe bem começar o dia a ser cumprimentado com um sorriso.

Bem, mas isto foi só uma contribuição para sair de casa alegre, não o cenário. Esse, apanhou-me ainda mais de surpresa, porque apesar de eu já ter feito o percurso do leitinho imensas vezes, incluindo alguns fins de semana, nunca tinha antes reparado como Coimbra é tão calma e silenciosa num Domingo de manhã. Nada daquele frenesim barulhento de buzinas ao longe, carros e motas a acelerar ruidosos, gente que grita ao telemóvel, burburinho dos cafés, e por aí em diante. Não se ouvia nada disso. Até os passarinhos, usualmente abafados pela cacofonia citadina, pareciam apreciar o silêncio e cantavam de forma algo frugal. Só ouvia os meus pensamentos, e o suave deslizar de um ou outro automóvel, que lá passava ocasionalmente perto de mim a velocidade agradavelmente moderada, tornando assim quase inaudível o trabalho do motor face ao muito mais natural rodar dos pneus no asfalto. Em vez de ruidosos como costume, os carros hoje estavam harmoniosos. Com uma cadência muito lenta, muito progressiva, lá passavam a acarinhar o alcatrão, e juro que, por estranho que pareça, imitavam o som do mar. Tal e qual! Fui, literalmente, evocado para um pôr do Sol nas Pedras Negras, ou uma noite de serenata de mar nas Paredes da Vitória, ou um simples momento de reflexão à beira-mar na praia vazia de S. Pedro de Moel. Com o Sol abundante e quentinho desta manhã a complementar aquele tão inusitado e calmo restolhar quase marítimo, senti-me de férias. Durante 10 minutos, esta manhã, senti-me verdadeiramente de férias, e pareci parvo a andar na rua com uma passada de cruzeiro e um sorriso estampado na cara. Aposto que aqueles dois ou três tipos que se cruzaram comigo de phones enterrados nos ouvidos estavam completamente clueless. Nem têm noção do que perdem.

Em que será que pensam eles, enquanto caminham?

(sem ofensa. gostos não se discutem)