Piruças

O ‘snifador’, lhe chamaram outrora; qualquer bandido com mais de um oitavo de grama era logo apanhado pelas aguçadas narinas pintadas a preto. Negros são também os olhos, que com tão profunda cor nos penetram e nos lêem como um livro aberto. Falo-vos de Piruças, o cão detective.

Sua mãe, cadela de boas famílias, guardava no coração uma eterna paixão proibida por Manchinhas, o vadio (como lhe chamavam os donos dela), que sempre se passeava lá à porta. Ansiava todos os dias para o ver, e sempre sonhava com as suas escapadelas a dois em segredo.
Foi numa noite chuvosa de Janeiro que, com enorme mágoa, ouviu ao longe o chiar dos pneus do ferrugento Datsun vermelho, mesmo na esquina da sua rua, e o forte embate que depois se fez sentir; não houve nem um choro, um latejo que fosse – Manchinhas era conhecido pela sua coragem e bravura, dizia-se até que nem sabia ganir – mas ela sentia-o, o seu amado tinha sido a vítima do Maneta – um viciado em cocaína sempre atrás da ‘cena’; naquela noite estava com a pressa da ressaca, a estrada já fugia diante dos seus olhos… Manchinhas foi apenas uma pedra no caminho.
Contou duas luas desde aquela terrível noite; acanhada num canto da velha garagem a cadela pariu um único cãozinho bebé, de cor laranja-fogo e olhos negros: Piruças sentia a frieza do mundo pela primeira vez. O pequeno rebento cresceu forte e robusto, um cão destemido à imagem de Manchinhas; sempre que olhava para ele, a velha cadela revia o seu grande amor. ‘Um dia, vais ser grande como ele foi’ sempre lhe dizia; Piruças não percebia bem o que sua mãe queria dizer com tais palavras, mas nunca as esqueceu. Desde pequeno que ouvia as histórias do pai, era o seu herói, mesmo que nunca o tenha chegado a conhecer; mas a recordação que mas emoção lhe impingia era a daquela negra noite de Inverno, em que Manchinhas foi morto pelo drogado… sentia uma enorme raiva, jurou vingar a sua morte.
O sentido apurado de olfacto foi-se desenvolvendo quase sem se ver, tinha ‘bom sangue’. A sua fama cresceu, destacava-se de todos os outros. Facilmente se tornou o grande cão detective que todos os departamentos invejavam.

É agora o fiel guardador da 6. Nunca dorme, continuamente alerta, nem um piscar de olhos se lhe percebe… está sempre preparado para atacar. De faca na pata, fielmente protege a entrada da casa de qualquer possível malfeitor. Deve-se a ele toda a segurança que sentimos dentro dos nossos quartos, e é por sabe-lo lá que dormimos com descanso pela noite. Estamos em paz.

Obrigado Piruças.

O grande Piruças nos seus dias de cão-detective.

Os grande Piruças nos seus dias de cão-detective.

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4 Respostas to “Piruças”

  1. PattyQ Says:

    Já tive um cão chamado Piruças…
    Já me esqueci do nome de alguns amigos, mas nunca me esqueci do nome dele!…:)
    Bonito texto:)

  2. Pi Says:

    Que fofinho! ^^
    Vocês têm Piruças, eu tenho o Patchu, um dragão gordo e mau hehehe

    A história está fantastica ;)

  3. Miguel Says:

    Gostava mais quando tinha uma faca.

  4. brandon Says:

    Vocês têm Piruças, eu tenho o Patchu, um dragão gordo e mau hehehe


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