Coisas da vida

Apesar de ter que ir para a Dungeon Comics daqui a nada para o torneio de bloco, não resisto a vir aqui contar esta historieta de hospital que inadvertidamente provoquei nem há meia hora.

Finda mais uma aula – se é que se pode chamar por esse nome ao trabalho autodidacta que fazemos – de propedêutica cirúrgica, eu, o Marvin, o Miguel, o João do Carmo (doravante apelidado Netter, por conveniência), e o Arnaldo apanhámos o elevador para ir ao piso -3 guardar batas em cacifos. E eis que, enquanto íamos descendo, empacotados em gente, entre os comentários do costume, eu menciono que “a seguir vou ao bloco”. O torneio, não o operatório.

[Pelos vistos uma rapariga bonita, que o Netter com o seu arcano conhecimento mais tarde nos esclareceu como sendo cardiologista e boa, retorquiu-me “Eu também vou”, mas eu não só não ouvi como não me apercebi da sua presença pelo que a ignorei à grande e à francesa]

Pouco depois, tomando consciência da brutal sonolência que me dominava, acrescentei: “estou cheio de sono. ainda vou adormecer no bloco, e perco por causa disso”. Uns segundos de raciocínio lento depois, apercebi-me que estava a falar em ir adormecer para o bloco num elevador cheio de utentes e funcionários dos HUC propensos a interpretar mal. Meio embaraçado ri-me do meu trocadilho acidental, e finalmente chegámos ao -3.

Já sem batas nem estetoscópios saímos pelo atalho da lavandaria e eis que, quase ao portão do hospital, uma senhora de idade com cara desorientada chama pelo Netter. “Oh menino, pode vir aqui?” Conhecedor do admirável talento do Netter para conversar com senhoras de idade, e também na vaga esperança de poder ajudar a dizer à senhora onde era o sítio que eu imaginei que ela estivesse à procura, fui atrás dele. E, quando nos aproximamos, ela larga a sua ofensiva: “O menino foi muito incorrecto. Sabe que não devia ter dito aquilo no elevador?”. Heróico, reconhecendo-me como o verdadeiro culpado, atravesso-me à frente do Netter para receber o golpe e tentar remediar o erro. “A senhora tem razão, mas aquilo que ouviu estava fora de contexto”. Nem deu sinais de se aperceber da troca de locutor, e logo disse que trabalhava na área da saúde e que eu tinha sido muito incorrecto, inconsequente, e pueril (não por estas palavras. estou a abreviar). Continuei a tentar explicar que eu estava a falar de algo completamente diferente sem intenção de fazer ninguém pensar em bloco operatório. Até fiz uma esperançosa mas falhada alusão às cartas Mágic, para lhe tentar mostrar que ela tinha percebido da forma errada. “Pois sim, eu percebi de muitas e derivadas maneiras! Saiba que saiu daquele elevador uma menina a chorar por causa daquilo que você disse!”. “Pois olhe, foi um mal entendido infeliz. Peço mil desculpas.” E dito isto virei costas e fui embora porque soube que ela não se iria ficar por ali se lhe deixassem. Enquanto me afastava ainda a ouvi enfatizar a palavra infeliz e a menina a chorar, entre os risos do Netter. Tudo por causa de um comentário acidental.

Eis o poder da palavra.

5 Respostas to “Coisas da vida”

  1. Says:

    “A língua Portuguesa é muito traiçoeira”.. eis que este estrondoso provérbio se encaixa na perfeição na tua história “infeliz”.. Talvez tendas a não voltar a fazer o mesmo, não te preocupes com isso. E olha, pensa positivo: Antes agora, enquanto estudante, do que se fosses médico cirurgião! Aí sim, a menina teria imensas razões para chorar. Mas pensado bem, enquanto cirurgião não jogarias cartas Magic.. ou será que sim? Huummm.. curioso!

  2. Löba Says:

    LOL, essa tá demais!!! :D Quem me dera ter assistido!! :D

  3. Pedro (Jesus) Says:

    Bolas, quem me mandou ir embora da aula meia hora antes? Porra, perdi este episódio, esta pedra preciosa na história destes 6 anos de curso… Pedro, arranja cenas do género quando eu estiver por aí, pode ser? Assim escangalho-me a rir junto com o Netter :D

  4. Pedro Says:

    Não me admirava muito de arranjar outro entretanto, não… Sabes que para estas coisas até tenho um certo talento!

  5. Ana Says:

    Ai Pedro, Pedro…já andas a pôr meninas a chorar e tudo? Engraçado que as tuas palavras sempre me deram mais para o rir que para o chorar :P

    Café quando quiseres, continuo no mesmo sítio***


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