Estou de férias em Albufeira. Pelos vistos, depois daquele fogo-de-vista quando ameacei reclamar o blog como só meu, o Nobre e o Nutarros nunca mais voltaram a postar, pelo que isto anda praticamente morto. Então, não tenho remédio senão vir aqui deixar qualquer coisinha que escrevi ontem à noite. Não me atirem demasiadas pedras.
Artifício
Esta noite, a praia está cheia e sou apenas mais um de entre muitos sentados na areia perto do mar. Envolvendo-nos, no ar, ouve-se um canto melódico e triste, fado cantado por e com uma alma acompanhada de guitarras. À minha volta, para cima e para baixo, e junto à mansa rebentação em desafio ao incomensurável poder do mar, correm crianças pequenas rindo, felizes, enquanto atiram areia umas às outras e caem ao chão com aparato.
É um cenário muito diferente daquela beleza indescritível, a mim tão especialmente querida, da praia nocturna sozinha e selvagem, mas à sua maneira possui uma beleza própria também encantadora, na vida emanada por estas pessoas todas que pintam a praia de um tom diferente do amarelo habitual, enquanto se embalam por esta melodia de melancolia que tanto nos toca. Os risos das crianças complementam-na bem.
E o mar, aproveitando a forte luz tangencial dos holofotes que nele incidem, adquire um padrão unusual com a ondulação criando riscas de água iluminada que avançam sobre um fundo escuro até se desfazerem em espuma. Entretanto, mais pessoas se vão aglomerando aos poucos na praia. À medida que o fado esmorece, a enorme massa de gente feliz aproxima-se ainda mais do mar: daqui a pouco começará o fogo de artifício.