“Recordo uma conversa que tivemos cerca de um ano antes da sua morte, enquanto passeávamos pelas colinas sobranceiras a Pasadena. Estávamos a explorar um caminho desconhecido e Richard, na altura convalescente de uma grande cirurgia a um cancro, caminhava mais devagar que o habitual. Estava a contar uma história longa e divertida sobre como tinha lido imenso sobre a sua doença, de tal modo que surpreendia os médicos ao prever o diagnostico que iriam fazer e quais as suas hipóteses de sobrevivência. Fiquei a saber pela primeira vez em que medida o seu cancro tinha progredido, pelo que as graças não pareciam ter graça nenhuma. Ele deve ter reparado na minha disposição de espírito, porque, de súbito, interrompeu a história e perguntou: «Que se passa?»
Hesitei. «Estou triste por ires morrer.»
«É verdade», suspirou ele, «isso por vezes também me chateia. Mas não tanto como pensas.» E, depois de ter dado mais alguns passos, continuou: «Quando se chega à minha idade, começa-se por ver que, de qualquer modo, transmitimos aos outros a maior parte do que sabemos melhor.»
Caminhámos em silêncio durante alguns minutos. Chegámos a um local onde um outro caminho interceptava o nosso e Richard parou para inspeccionar as redondezas. De súbito, um sorriso largo iluminou-lhe o rosto. «Eia!», exclamou ele, todos os vestígios de tristeza esquecidos, «aposto que consigo encontrar um caminho melhor de regresso.»
E assim fizemos.”
- in O melhor de Feynmann

